quarta-feira, 7 de novembro de 2012

NO JARDIM DA AVÓ

O garoto está mal e já faz quinze dias.  Algo começara nascer em seu rosto e corpo além de dores nas pernas, braços e falta de respiração. A família se desesperava, os amigos sabiam que algo tinha acontecido mas na correria de São Paulo, deixaram-no de lado, a não ser uma garota, a que todos os dias perguntava-lhe como estava e sempre deseja melhoras. E o garoto? bom, o garoto sentia suas dores e tentava, sem incomodar, aliviá-las. Fora em médicos que não conseguiram curá-lo apesar de aliviar, em parte, suas dores.

O garoto era jovem e tinha seus romances por aí. Das quatro garotas com quem ele flertava, três sentiram sua ausência, duas mostram-se preocupadas e apenas uma telefonou, porém passado sete dias, ele não teve mais forçar para procurar alguém, e para seu espanto, nenhuma delas o procurou também.

Ele sentia que fazia falta nos bares, nas baladas e na rua, mas era uma ausência provisória, pensou ele: "logo me substituirão. Esse é o mundo que eu mesmo escolhi". Como se não bastasse a dor física, agora o garoto estava aprendendo a lidar com a dor emocional, que lhe pesara o mesmo tanto.

Adorava se dedicar a projetos artísticos, via-se impossibilitado pela canseira que os remédios lhe causava, e sua mente quase inválida e preguiçosa, o deixava numa angústia intolerável fazendo com que voltasse seus medos e as tentações adolescentes de querer se matar.

Religião ele não tinha, talvez nem em Deus acreditasse. Nesse dilema e nessa angustia que aumentava a cada dia, a doença completara quase um mês e seu pai, devoto do catolicismo, o levara na missa nos últimos dois domingos. Também bebera água santa, benzida pelo pastor da igreja de sua vó e vestiu uma camiseta abençoada pelo mesmo. O garoto não acreditava em nada daquilo, porém acreditava na fé de seus parentes e aceitava tudo que eles lhe ofereciam.

Uma afastada tia ligara ao garoto, perguntando se ele havia melhorado. A família não a aceitava por ela frequentar o Candomblé, mas ele sempre gostou muito dela e não a rejeitava, a tia queria fazer-lhe uma vizinha e o sobrinho esclareceu a todos que além de aceitar, ele queria a visita dela e não aceitaria falta de educação para com ela.

Na manhã seguinte, o garoto acordou com a voz dela e logo desceu as escadas. Todos estavam na sala e ela oferecera uma espécie de olho santo, o garoto deveria tomar e nesse momento sua avó tirou os olhos da mesa e proibiu o garoto de tomar dizendo que era aquilo, coisa do Diabo.

O garoto ficou nervoso e acabou discutindo com sua avó, a confusão foi tanta que logo todos estavam discutindo, exceto o garoto que estava de olho em sua prima, uma garotinha cinco anos de idade que acabou fugindo para a rua atrás de uma bexiga, um caminhão passava e a menina quase fora atropelada se não fosse o garoto, que a empurrou para a calçada e se foi, no lugar da garotinha.

A família está discutindo sem parar há três dias, enquanto a garota enterra o corpo de seu primo, no jardim da avó.

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